sexta-feira, 7 de julho de 2017

Um texto fundamental sobre Maio de 68, de Roger Gregoire e Fredy Perlman

Foi integralmente traduzido para o português o livro de Roger Gregoire & Fredy Perlman Comitês de ação dos trabalhadores e estudantes. França, maio de 68 que é um dos melhores relatos e análises de maio de 1968. Abaixo, alguns trechos:

"A consciência do poder coletivo é a primeira etapa em direção à apropriação do poder social (mas apenas a primeira etapa, como será mostrado logo a seguir). Conscientes do seu poder coletivo, os ocupantes da universidade, trabalhadores e estudantes, começam a se apropriar do poder de decidir, eles começam a aprender a dirigir suas próprias atividades sociais. O processo de desalienação política começa; a universidade é desinstitucionalizada; o prédio é transformado em um lugar que é dirigido pelos seus próprios ocupantes. Não há “especialistas” nem “responsáveis”. A comunidade é responsável coletivamente pelo que acontece, e pelo que não acontece, dentro do prédio ocupado. Atividades sociais anteriormente especializadas se tornam integradas nas vidas de todos os membros da comunidade. As atividades sociais não são mais executadas pela coerção direta e nem pela coerção indireta do mercado (i.e., a ameaça de pobreza ou fome). Como resultado, algumas atividades sociais, como arrumar o cabelo ou enfeitar as unhas, não são mais executadas. Outras atividades, como cozinhar, varrer os quartos, limpar os banheiros - tarefas executados por pessoas que não tem outra escolha em um sistema coercitivo - são deixadas sem fazer por vários dias. A ocupação mostra sinais de degradação: a comida é ruim, os quartos estão sujos, os banheiros estão inutilizáveis. Essas atividades se tornam a ordem do dia para a assembleia geral: todos estão interessados em sua execução eficiente, e ninguém é coagido institucionalmente para desempenhar essas tarefas. A assembleia geral é responsável pelo seu desempenho, o que significa que todos são responsáveis. Comitês de voluntários são formados. Um Comitê de Cozinha melhora a qualidade das refeições; a comida é de graça: ela é provida por comitês de vizinhança e por camponeses. Um serviço de arrumação se incumbe de manter os banheiros limpos e guarnecidos com papel higiênico. Cada comitê de ação limpa sua própria sala. As tarefas são executadas por professores, estudantes e trabalhadores. Nesse ponto, todos os ocupantes do Censier são trabalhadores. Não há mais  trabalhos de status superior e inferior; não existem mais tarefas intelectuais e manuais, trabalho qualificado e não qualificado; há apenas atividades socialmente necessárias.

Uma atividade que for considerada socialmente necessária por um punhado de ocupantes se torna a base para a formação de um comitê de ação. Cada pessoa é um pensador, um iniciador, um organizador, um trabalhador. Companheiros estão sendo feridos gravemente por policiais nas lutas na rua: um andar do Censier é transformado num hospital; doutores e estudantes de medicina cuidam dos pacientes; outros sem experiência médica ajudam, cooperam e aprendem. Um grande número de companheiros têm bebês e como resultado não podem tomar parte nas atividades que os interessam: os companheiros se juntam para formar uma creche. Os comitês de ação precisam imprimir panfletos, anúncios, relatórios: máquinas de mimeógrafos e papéis são encontrados e um serviço de impressão livre é organizado. Pessoas da cidade - observadores e participantes em potencial - afluem no Censier constantemente e são incapazes de se localizar em meio ao complexo sistema social que começou a se desenvolver no prédio: uma janela de informação é mantida na entrada e escritórios de informação são mantidos em cada andar para orientar os visitantes. Muitos militantes vivem longe do Censier: um dormitório é organizado.

O Censier, anteriormente uma universidade capitalista, é transformado num sistema complexo de atividades e de relações sociais auto-organizadas. Entretanto, o Censier não é uma Comuna autossuficiente removida do restante da sociedade. A polícia está na ordem do dia em cada assembleia geral. Os ocupantes do Censier estão plenamente cientes que suas atividades sociais auto-organizadas estão ameaçadas enquanto o Estado e o aparato repressivo não forem destruídos. E eles sabem que sua força, e mesmo a força de todos os estudantes e de alguns trabalhadores, não é suficiente para destruir o potencial do Estado para a violência.

A única força que pode colocar os ocupantes do Censier de volta no sono é uma força que é fisicamente forte o bastante para quebrar sua vontade: a polícia e o exército nacional ainda representam tal força.

Os meios de violência produzidos por uma indústria altamente desenvolvida são ainda controlados pelo Estado capitalista. E os ocupantes do Censier estão cientes de que o poder do Estado não será quebrado enquanto o controle sobre estas atividades industriais não passar aos produtores: eles “estão convencidos de que a luta não pode ser concluída sem a massiva participação dos trabalhadores”. [14] O poder armado do Estado, o poder que nega e ameaça aniquilar o poder da criação coletiva e de auto-organização manifestadas no Censier, só pode ser destruído pelo poder armado da sociedade. Mas antes que a população possa ser armada, antes que os trabalhadores tomem controle dos meios de produção, eles devem se tornar conscientes de sua capacidade de fazê-lo, eles devem se tornar conscientes do seu poder coletivo. E essa consciência do poder coletivo é precisamente o que estudantes e trabalhadores adquiriram depois que eles ocuparam o Censier e transformaram-no em um lugar de expressão coletiva. Consequentemente, a ocupação do Censier é uma ação exemplar, e o objetivo central dos militantes do Censier torna-se comunicar o exemplo. Todas as atividades auto-organizadas giram em torno dessa tarefa central. Antigas salas de aula se tornam oficinas de comitês de ação recém formados; em cada sala, projetos são sugeridos, discutidos e iniciados; grupos de militantes surgem com um projeto, e outros surgem para iniciar um novo." (Censier Libertado: Uma Base Revolucionária. O caráter exemplar da ocupação da universidade)

"[...]Na Sorbonne, no Censier, em Nanterre, e em outros lugares, a universidade foi proclamada uma propriedade social; os prédios ocupados tornaram-se ex-universidades. Os prédios foram abertos para toda a sociedade - estudantes, professores, trabalhadores - para qualquer um que desejasse ir lá. Além do mais, as ex-universidades foram geridas pelos seus ocupantes, fossem eles estudantes ou não, trabalhadores, camponeses. No Censier, de fato, a maioria dos ocupantes não era “estudante”. Essa socialização foi acompanhada por uma ruptura da divisão do trabalho, da divisão entre “trabalhadores” e “intelectuais”. Em outras palavras, a ocupação representou a abolição da universidade como uma instituição especializada restrita a um segmento específico da sociedade (estudantes). A ex-universidade se tornou socializada, pública, aberta a todos.

As assembleias gerais nas universidades foram momentos de auto-organização pelas pessoas dentro de um prédio específico, independente de suas  especializações anteriores. Elas não foram momentos de auto-organização a respeito de “seus próprios” assuntos.

Entretanto, isso foi o mais longe que a “escalada” foi. Quando as pessoas que organizavam as atividades dentro da universidade ocupada foram “aos trabalhadores”, fosse nas barricadas ou nas fábricas, e quando eles disseram para os “trabalhadores”: VOCÊS devem tomar SUAS fábricas”, eles mostravam uma completa falta de entendimento sobre o que eles já estavam fazendo nas ex-universidades.

Nas ex-universidades, a divisão entre “estudantes” e “trabalhadores” foi abolida na ação, na prática cotidiana dos ocupantes; não havia mais “tarefas de estudantes” e “tarefas de trabalhadores”. Entretanto, a ação foi mais longe que a consciência. Ao ir aos “trabalhadores” as pessoas viam os trabalhadores como um setor especializado da sociedade, eles aceitaram a divisão de trabalho. 

A escalada foi tão longe a ponto da formação de assembleias gerais de seções da população dentro das universidades ocupadas. Esses ocupantes organizaram suas próprias atividades.

Entretanto, as pessoas que “socializaram” as universidades não viram as fábricas como meios SOCIAIS de produção; elas não perceberam que essas fábricas não foram criadas pelos trabalhadores empregados lá, mas por gerações de trabalhadores.Tudo que eles viram, dado que isso é visível na superfície, é que os capitalistas não fazem a produção mas os trabalhadores fazem. Mas isso é uma ilusão. A Renault, por exemplo, não é em nenhum sentido um “produto” dos trabalhadores empregados na Renault, ele é um produto de gerações de trabalhadores (não apenas na França), incluindo mineiros, produtores de máquinas, produtores de comida, pesquisadores, engenheiros. Pensar que as fábricas automobilísticas da Renault “pertencem” às pessoas que hoje trabalham lá é uma ilusão. Porém, essa ficção foi aceita por pessoas que rejeitaram a especialização e a “propriedade” nas universidades ocupadas.  

Os “revolucionários” que transformaram as universidades em espaços públicos, e consequentemente em propriedade de ninguém, não estavam conscientes do caráter SOCIAL das fábricas. O que eles contestaram foi o “sujeito” que controlava a propriedade, o “proprietário”. A concepção dos “revolucionários” era que “os trabalhadores da Renault devem gerir as fábricas ao invés dos burocratas do estado; os trabalhadores da Citroen devem gerir a Citroen no lugar dos proprietários capitalistas”.  Em outras palavras, as propriedades privada e estatal devem ser transformadas em propriedade do grupo: a Citroen deve se tornar uma propriedade dos trabalhadores empregados na Citroen. E visto que essa “corporação” de trabalhadores não existe no vácuo, ela deve estabelecer maquinarias para se ligar a outras corporações, “externas”, de trabalhadores. Consequentemente, eles devem estabelecer uma administração, uma burocracia, que “representa” os trabalhadores de uma fábrica particular. Um elemento dessa concepção corporativista foi afetado pelo “modelo” das universidades ocupadas.Tão logo o sindicato estudantil foi rejeitado como o “porta-voz” dos estudantes que ocuparam a universidade, o sindicato tradicional (A Confederação Geral do Trabalho) foi rejeitado como o “porta-voz” dos trabalhadores incorporados: ”os trabalhadores devem ser representados não pela CGT; eles devem ser representados por eles mesmos,” quer dizer, por uma nova burocracia eleita democraticamente. 

Assim, mesmo na perspectiva dos ocupantes da universidade, as fábricas não deveriam ser socializadas. Desse modo, as “assembleias Gerais” dentro das fábricas não possuíam o mesmo significado que nas universidades. As fábricas deveriam se tornar uma propriedade de grupo, como as empresas iugoslavas. Tais empresas não são socialmente controladas; elas são geridas por burocracias dentro de cada empresa.
[...]

A ideia de que “os meios de produção pertencem aos trabalhadores” foi traduzida como significando que os trabalhadores são donos da fábrica em particular na qual eles trabalham. Essa é uma vulgarização extrema. Tal interpretação implicaria que a atividade particular à qual a luta pelo salário condenou alguém na sociedade capitalista é a atividade a que esse alguém estaria condenado quando a sociedade é transformada. E se alguém que trabalha nas fábricas de automóveis quisesse pintar, plantar, voar ou fazer pesquisa no lugar de produzir numa linha de montagem de carros? Uma revolução deveria significar que os trabalhadores, a partir desse momento, poderiam ir a toda a sociedade, e é duvidoso que muitos deles retornassem para a fábrica de carro particular que o capitalismo os tinha condenado a trabalhar."(Parte 2. Avaliação e Crítica. Limites da escalada)

O texto do livro completo está neste link: Comitês de ação dos trabalhadores e estudantes. França, maio de 68

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Brochura humanaesfera #5 - O mecanismo atrativo - extratos das obras de Charles Fourier e do Jornal L'Humanitaire


Saiu Humanaesfera #5Quinta brochura (livreto) com conteúdos deste site. Este número contém extratos das obras de Charles Fourier e também extratos da primeira publicação comunista libertária, o jornal L'Humanitaire


Neste link, está o PDF com a brochura, que consiste de 6 folhas A4 para serem impressas frente-e-verso (em impressoras que imprimem em frente-e-verso automaticamente, selecione "borda curta" ou "no sentido da borda menor", ou ainda "Frente e verso, orientação vertical"), dobradas e grampeadas no meio. Ela contém os textos:

Trechos de Charles Fourier sobre a teoria da atração apaixonada (1808-1858)

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Viva a cópia!!!



CÓPIA - do latim copia, "abundância, profusão, fartura, plenitude" . Formado de com, "junto, com, em comum", + ops (genitivo: opis), "poder, riqueza, força, recursos". Em português, copia originou as palavras copiar e cornucópia. E a raiz ops originou as palavras obra, ópera, opulento, ótimo, operário, ofício, oficina, cooperar, manobra.

Charles Fourier: “[Na civilização,] cada pessoa engajada numa indústria está em guerra com as massas, e malevolente para com elas por interesse pessoal. Um médico deseja de seus semelhantes bons casos de febres, e um advogado, bons processos em cada família. Um arquiteto necessita de um bom incêndio que reduza um quarto da cidade às cinzas, e o vidreiro deseja uma boa tempestade de granizo que quebre todas as vidraças. Um alfaiate, um sapateiro quer que o público use somente coisas mal pintadas e sapatos feitos de couro fajuto, de modo a triplicar a quantidade consumida – para o benefício do comércio; é isso que os preocupa. Uma corte de justiça considera oportuno que a França continue a cometer 120.000 crimes e danos reclamáveis, número necessário para manter as cortes criminais. É assim que na indústria civilizada cada indivíduo está em guerra proposital com as massas; é o resultado necessário da indústria anti-associativa ou de um mundo invertido. [...]

Esse círculo vicioso da indústria é tão claramente percebido que por toda parte o povo está começando a suspeitar dele e a sentir, estupefato, que, na civilização, a pobreza nasce da própria abundância. [...]

Portanto, a indústria civilizada, eu repito, só pode criar os elementos da felicidade, mas não a própria felicidade. Pelo contrário, será mostrado que o excesso de indústria leva a civilização a grandes infortúnios, se os métodos do progresso real na escala social não forem descobertos.” (Charles Fourier, Teoria dos Quatro Movimentos)
Este e outros trechos de Fourier que resumem suas ideias principais podem ser encontrados neste link: A atração apaixonada (trechos de Charles Fourier, 1808-1858)

sábado, 15 de abril de 2017

Imprensa autônoma humanaesfera





Reunimos neste post uma série de livretos/brochuras com conteúdos deste site que podem ser impressos autonomamente por quem tiver acesso a uma impressora:


PRIVATE PROPERTY, SCARCITY AND DEMOCRACY

O site SUBVERSION PRESS publicou um livreto para imprimir (PDF) que contém dois textos nossos traduzidos para o inglês.

This printable zine contains two texts:



Link para o PDF: https://subversionpress.wordpress.com/2016/11/24/private-property-scarcity-and-democracy/


BROCHURA HUMANAESFERA #5

Humanaesfera #5Quinta brochura (livreto) com conteúdos deste site. Este número contém extratos das obras de Charles Fourier e também extratos da primeira publicação comunista libertária, o jornal L'Humanitaire
Neste link, está o PDF com a brochura, que consiste de 6 folhas A4 para serem impressas frente-e-verso (em impressoras que imprimem em frente-e-verso automaticamente, selecione "borda curta" ou "no sentido da borda menor", ou ainda "Frente e verso, orientação vertical"), dobradas e grampeadas no meio. Ela contém os textos:

Trechos de Charles Fourier sobre a teoria da atração apaixonada (1808-1858)


BROCHURA HUMANAESFERA #4

Humanaesfera #4 (número especial sobre transformação da vida cotidiana). Quarta brochura (livreto) com conteúdos deste site.


Neste link, está o PDF com a brochura, que consiste de 6 folhas A4 para serem impressas frente-e-verso (em impressoras que imprimem em frente-e-verso automaticamente, selecione "borda curta" ou "no sentido da borda menor", ou ainda "Frente e verso, orientação vertical"), dobradas e grampeadas no meio. Ela contém os textos:

- Autonomia, espiral de violências e apelo à força (i.e. à classe dominante)

A autonomia é favorecida pelas lutas identitárias?

Contra as recompensas e punições (contra a meritocracia, contra a coerção)

Ação direta VERSUS trabalho de base

Contra a estratégia

Abolição do trabalho e a questão do circuito produtivo global no comunismo


BROCHURA HUMANAESFERA #3
https://goo.gl/FFqNfVHumanaesfera #3. Terceira brochura (livreto) com conteúdos deste site.
Neste link, está o PDF com a brochura, que consiste de 6 folhas A4 para serem impressas frente-e-verso (em impressoras que imprimem em frente-e-verso automaticamente, selecione "borda curta" ou "no sentido da borda menor", ou ainda "Frente e verso, orientação vertical"), dobradas e grampeadas no meio. Ela contém os textos:

BROCHURA HUMANAESFERA #2


https://goo.gl/umWiM6humanaesfera #2, livreto/brochura que contém trechos de "A Humanisfera - Utopia Anárquica" de Joseph Déjacque.

terça-feira, 11 de abril de 2017

O antifascismo como forma de adesão ao sistema - El último de Filipinas Alacant



Trecho: "[...]Para determinar a função que o fascismo cumpre, deve-se determinar a realidade na qual ele se desenvolve, que certamente não é a mesma dos anos 30. A necessidade constante de desenvolvimento das forças produtivas do capitalismo levou-o a uma crise permanente. A crise do modelo keynesiano de desenvolvimento, desde princípios dos anos 70, conduz a uma paulatina superação desse modelo (do Estado de Bem-estar) e à gradual extensão de um novo (velho) modelo de liberalismo. Atualmente, ambos convivem e/ou concorrem na estrutura internacionalizada da economia de mercado. Mas essa instabilidade é suscetível de gerar graves disfuncionalidades.
A substituição de um modelo em decadência por outro em ascensão cria uma situação de precariedade e uma forte resistência em grandes camadas da sociedade. A isso se acrescenta a suposta imigração em massa como causa de disfuncionalidade adicional, fruto da internacionalização da economia e do incremento da exploração nos países da periferia, assim como a marginalização de grandes áreas geográficas do mercado-mundo.
Em resumo, eis o quadro onde se situa o fascismo. Hoje, sua missão é facilitar a transição de um modelo a outro, desenvolvendo políticas que tendem não a tomar o poder (não já...), mas a fortalecê-lo e totalizá-lo por meio de leis repressivas, anti-imigração etc., que impeçam ou neutralizem as possíveis disfuncionalidades - que se traduziriam em revoltas cíclicas ou movimentos de resistência -, conservando e mantendo formas de governo formalmente democráticos mas acentuando o papel repressivo do Estado capitalista. Portanto, o fascismo trataria de, ao mesmo tempo, direitizar e desestabilizar a sociedade, para justificar as medidas de urgência por parte do Estado. Por outro lado, é restabelecida a dicotomia democracia ou fascismo (duas caras do mesmo capitalismo), reforçando a alternativa democrática diante da possibilidade fascista, saindo vitorioso, desse falso enfrentamento, o capital.
ANTIFASCISMO HOJE
Entendendo a função do fascismo na atual estrutura das relações sociais e econômicas, podemos entender a função do antifascismo. Hoje, o antifascismo adota (querendo ou não) diversas facetas e funções:
O antifascismo como atitude estética. O antifascismo é pouco menos que uma moda. A falta de análise, debate e crítica é patente. Não globaliza o problema, mas trata de separar seus efeitos mais palpáveis (violência de rua fascista), reproduzindo-os, em muitos casos (violência de rua antifascista). Ao redor do antifascismo é criada e recriada uma estética ganguista e de escasso conteúdo, regida por uma violência boçal e estéril. Proliferam grupos, coletivos, plataformas etc., que tratam de responder a um fenômeno sem analisar suas causas ou, ao menos, sem atacá-las. Atos de repúdio ou de puro caráter anedótico, como as manifestações de 20 de novembro, são moeda comum. Mais além, deve-se situar a patética imagem do mata-nazis como figura folclórica do movimento que, em muitos casos, copia atitudes e esquemas mentais de seus supostos adversários, numa clara tendência militarista que pode chegar a prevalecer e envolver todo o movimento.
O antifascismo como luta de distração. Fixar nossos esforços na luta antifascista a nível parcial nos distancia inevitavelmente da centralidade da luta de classes: criar consciência e auto-organização de classe. O antifascismo distrai a atenção de um problema concreto, fruto de uma situação global. Ainda mais quando cai em dinâmicas de repressão-ação (difíceis de evitar), que levam o movimento a centrar seu trabalho na resposta a agressões de grupos fascistas ou do aparato repressivo do Estado, quando @s antifascistas sofrem represálias.
O antifascismo como colaboração de classe. O lema "todos contra o fascismo" pode exemplificar uma tendência para a colaboração de classes. A aliança, em plataformas etc., com forças contra-revolucionárias da esquerda capitalista é patente em muitos casos. Um lema tão geral pode ser tomado de muitos ângulos, desde a esquerda colaboracionista até a direita liberal, passando pelos grupúsculos oportunistas (os restos do leninismo, que combatem o fascismo aqui e apoiam alianças entre fascistas e "comunistas" na antiga URSS). A história volta a se repetir, com um cenário totalmente distinto, ao se desenvolverem políticas frentistas que implicam um reforço do modelo capitalista sob formas democráticas parlamentares. Volta-se a colaborar com os inimigos de classe, socavando os próprios interesses em nome de uma defesa dos inimigos aparentemente mais diretos e atrozes: os fascistas. O resultado é que, no lugar de fazer cotidianamente a revolução, nos aliamos aos inimigos dela.
O antifascismo como forma de reforçar o Estado. Os grupos antifascistas reclamam medidas estatais e legais que reprimam o fascismo 6: leis contra grupos nazis, medidas policiais, altas penas de prisão etc. A aplicação de tais medidas dificilmente nos favoreceria, muito pelo contrário. Com isso, reforça-se o papel do Estado como repressor e seu poder é fortalecido. Não deixa de surpreender e alarmar que, de nossas fileiras, sejam dadas armas para nosso mais evidente inimigo: o Estado. Assim como quem considera que as leis do Estado possam ser nossa salvaguarda contra aqueles que são nem mais nem menos que seus cúmplices: os fascistas.
PALAVRAS FINAIS
Não se pretende fazer, a partir deste artigo, uma crítica sanguinária e sem atenuantes a todos os grupos antifascistas. Não é possível pensar que esse movimento seja homogêneo e igualmente criticável, mas sim que é necessário começar a criticar, analisar e, definitivamente, pensar a realidade. Globalizar as situações para intervir na realidade e transformá-la é tarefa de tod@ revolucionari@. Do contrário podemos cair (mesmo que seja sem o desejar) no papel de cúmplices e companheir@s de viagem do próprio sistema que nos oprime. Tampouco deseja este artigo dizer que não devemos enfrentar o fascismo, mas sim esclarecer que essa luta forma parte (e não a fundamental) do enfrentamento cotidiano contra o Capital-Estado e não uma forma de justificar a existência destes."

quarta-feira, 29 de março de 2017

L'Humanitaire (1841), a primeira publicação comunista libertária (trechos selecionados)



Traduzimos as principais partes e alguns artigos completos do jornal L'Humanitaire, publicado em 1841, em Paris [1]. O jornal exprimia a tendência denominada communistes matérialistes, também chamados communistes immédiats ou humanitaires. Foi “a primeira publicação comunista libertária”, segundo o historiador Max Nettlau. Infelizmente, devido à forte repressão que se seguiu (em que 20 envolvidos foram presos), o jornal foi descontinuado após o segundo número. [2]


Os textos dos dois números do jornal (publicados, respectivamente, em julho e agosto de 1841) defendiam: 

- a criação imediata de uma sociedade “onde toda dominação do homem pelo homem seja inteiramente abolida”; 

- a abolição das fronteiras nacionais (obs.: a palavra humanitaire, humanitário, não existia no dicionário. Era então um neologismo para se referir à ideia de comunidade humana mundial, ao universalismo, internacionalismo, cosmopolitismo etc, ou seja, tinha um sentido diferente de hoje, que se restringe à filantropia estatal, bélica ou burguesa [3]);

- a abolição da coerção ao trabalho, assim como da divisão do trabalho, através da instauração do trabalho atrativo (ideia inspirada em Charles Fourier), numa situação em que os seres humanos viajariam livre e continuamente pelo mundo, deixando “livre curso ao desenvolvimento da fraternidade ao livrar o homem do contato perpétuo com os mesmos seres, o que engendra o apego individual que é positivamente a negação da lei da atração, una e universal” e em que ninguém faria o mesmo trabalho por mais de um dia. E

- coerentemente com a superação da divisão do trabalho, a abolição tanto da venda quanto da troca, numa sociedade que se organiza em função da livre satisfação de todas as necessidades humanas e do livre desenvolvimento de todas as faculdades.

O jornal causou escândalo, sendo fortemente criticado e combatido pelas demais tendências socialistas de então, como os icarianos (seguidores de Étienne Cabet, defensor de um comunismo cristão 
autoritário, pacifista, a-classista,  autor da utopia Viagem à Icária, e fundador do jornal Le Populaire) e os socialistas reformistas com tendências espiritualistas e nacionalistas (como os jornais L´Atelier, Le Travail e La Fraternité) [4]. 
Gabriel Charavay, em 1878

Os redatores de L'Humanitaire eram: Gabriel Charavay (camiseiro, depois jornalista iniciante e livreiro), Jean Joseph May (agrônomo), Julien Gaillard (encanador), Pierre Antoine Nicolas Page (joalheiro). Sabemos os nomes dos outros participantes por causa da forte repressão policial que se abateu sobre eles: a feminista Louise Dauriat, os camiseiros Jean Charavay e Donatien Dauvergne, os joalheiros Anselme Mugnier e Augustin Noël, os tipógrafos François Garde e Claude Chassard, os sapateiros Antoine Fombertaux e Jean Sans, o telhadista Désiré Gaillard, os alfaiates Alexis Trottier e Théodore Ber, o contador Corneille Homberg, o pedreiro Silvain Mourlon, o marceneiro Quéré, o curtidor Auguste Sauvaitre, o secretário de negócios Hyppolite Loudier e o vendedor de vinhos Etienne Rousseau [5]. 

Muitos temas que apareceram em L'Humanitaire, como o das viagens contínuas, reapareceram amplamente desenvolvidos depois, em 1857, em A Humanisfera - utopia anárquica, de Joseph Déjacque. Também em Karl Marx, especialmente em A Ideologia Alemã, de 1846 e nos Manuscritos de Paris, de 1844. Por exemplo, a questão da superação da divisão do trabalho por uma livre associação de indivíduos em escala mundial, culminando no tema da abolição do trabalho em si. Nessas obras de Marx, há inclusive frases que parecem quase que transcritas de L'Humanitaire, por exemplo: “O que é a vida senão atividade?” No entanto, não há provas de que eles tenham lido o jornal. É possível que tenham sido influenciados através do contato direto com as ideias circulantes no meio proletário parisiense da década de 1840, ou que tenham desenvolvidos essas ideia por si mesmos, uma vez que os problemas concretos que levam a tratar dessas questões são comuns aos proletários do mundo inteiro, inclusive hoje.

O jornal também publicou uma biografia de  Sylvain Maréchal (que não traduzimos), com quem se identificavam por suas ideias "anti-políticas ou anarquistas".

Aliás, um dos redatores de L'HumanitaireJean Joseph May, é citado pelo espião Lucien de La Hodde, que relatou: “O Sr. Jean Joseph May, que está morto – o Deus da comunidade guarde a sua alma! – não era um homem ordinário, visto que o Sr. Proudhon se dignou a tomar suas ideias. O famoso sistema de governo an-árquico, isto é, do governo sem governantes nem governados, não é nem mais nem menos que a propriedade do falecido Sr. May” [6].

humanaesfera, março de 2017

Notas:
[1] Os dois números de L'Humanitaire em francês podem ser acessado neste link da Gallica da Biblioteca Nacional da França. 
[2] Prehistory of the Idea - Nick Heath



L'HUMANITAIRE, 
 Organe de la Science Sociale 
(trechos seletos)

Abaixo, por razões de espaço, selecionamos apenas alguns trechos, organizados por temas, de nossa tradução mais completa, que publicamos neste link.


[FACULDADES HUMANAS, RAZÃO E UTILIDADE]

"O desenvolvimento completo de todas as faculdades humanas será a garantia da utilidade (*) de todos os seus atos. Assim, o mal, ou seja, o ato pelo qual o homem é nocivo a si mesmo, ou nocivo a um ser de sua espécie, deve se tornar impossível em uma organização social baseada na natureza humana. [...]  Do desenvolvimento completo das faculdades deve resultar a razão, ou o conhecimento exato, preciso, do útil e do nocivo [...]Alguém nos dirá: “não é verdade, portanto, que o homem é mau, já que pretendeis lhe retirar até mesmo a possibilidade de fazer mal?” Não, certamente que não, os homens não são maus; eles são tolos e ignorantes. Uma ordem social em evidente oposição às leis eternas da matéria e às necessidades da natureza humana falsificou todos os nossos conhecimentos, obstruiu o desenvolvimento da ciência e impeliu o homem, ignorante e embrutecido, a cometer atos nocivos à sua conservação. Para remediar o mal, é preciso desenvolver no homem essa faculdade preciosa que ele recebeu da natureza, a razão, fazer dela a medida da satisfação de suas necessidades materiais, uma vez que ela é a única regra que ele pode consultar em cada um de seus atos. Com esse desenvolvimento da razão, se retira do homem toda possibilidade de fazer o mal, pois seria odiosamente absurdo pretender que um homem sensato, que não age nunca fora da razão, possa ser nocivo a si mesmo.

[(*) {Nota de L'Humanitaire:} "Entendemos por esta palavra {utilidade} tudo aquilo que contribui à saúde, à conservação e, portanto, à felicidade do homem; nós chamamos de nocivo tudo que é o contrário disso."]

[...]

Após estudar e pesquisar por muito tempo a solução de todos esses problemas, adquirimos a certeza de que a situação igualitária pode, sozinha, resolver todos eles; nosso jornal provará isso de uma maneira evidente e irrefutável.

A consequência primeira desse princípio sendo a unidade, a indivisibilidade não pode admitir nenhuma divisão, nenhum particionamento do solo. Queremos portanto a comunidade de bens.


[ALGUMAS CRÍTICAS Á L'HUMANITAIRE]

Mas que tempestade de recriminações e objeções essas duas palavras, igualdade e comunidade, não levantam?! “A igualdade, lei absoluta, não existe em lugar nenhum. Sua realização será a negação do ser intelectual e moral! Será a destruição da ciência e das artes, o retorno ao embrutecimento e ao estado selvagem! E a atividade, essa nobre e preciosa faculdade do homem, é aniquilada pela igualdade! E que langor, que monotonia, que coerção na comunidade de bens! Além disso, quanta dissidência entre os comunistas! Cada um entende a comunidade à sua maneira! De onde vem essa falta de unidade? Por que então esse novo jornal comunista, quando já existem dois em Paris?


[FACULDADES INTELECTUAIS E MORAIS]

Os fisiologistas reconhecem no homem três naturezas bem distintas, em outros termos, três ordens de fatos. Há três tipos de necessidade: as necessidades físicas, as necessidades intelectuais e as necessidades morais. Longe de querer contestar essa trindade do organismo humano, de cuja existência estamos perfeitamente convencidos, o que afirmamos é que a sociedade deve satisfazer por inteiro todas as necessidades humanas. Assim, visto que reconhecemos no homem as necessidades intelectuais e morais, cuja satisfação, para nós, é tão imperiosa quanto as necessidades físicas, então estamos longe de querer aniquilar o ser intelectual e moral. Nós demostraremos, pelo contrário, que a organização igualitária permite por si só o desenvolvimento completo de todas as faculdades humanas. Essa é, além do mais, a consequência implicada na fórmula que usamos para anunciar o problema social. De fato, ao colocar como princípio que o objetivo da ciência social é garantir a conservação da espécie humana, com isso implicamos também que ela deve garantir ao homem o desenvolvimento de todas as suas faculdades intelectuais, visto que só esta última indica os meios para chegar a esse objetivo. Desse modo, está aniquilada essa objeção tola de que a igualdade é a negação do ser intelectual.

Assim, cai também aquela outra objeção segundo a qual a lei igualitária destruiria a ciência e as artes.


[ATIVIDADE HUMANA, ATRAÇÃO, UTILIDADE]

Mas a igualdade esmaga, sufoca e aniquila a atividade humana.” Ah! Se fosse assim, nós seríamos bem criminosos, e a igualdade seria uma lei horrivelmente atroz! Mas sabemos que viver é ser ativo. Longe então de querer negar no homem essa necessidade de conhecer, de raciocinar, de agir, e, consequentes com o princípio que expomos, queremos que essa necessidade tenha uma satisfação completa. Provaremos que a situação igualitária pode garantir por si só essa satisfação. Mas não basta que a atividade humana tenha uma satisfação completa para que tudo possa ser melhor quanto a isso. A ciência social, que busca todos os meios que são úteis à humanidade, deve também encontrar o de atrair sem cessar essa faculdade aos objetos úteis, ao invés de deixá-la se perder na aberração ou em futilidades. Cremos que atingir esse resultado é chegar ao último termo da perfectibilidade.


[A QUESTÃO DO LANGOR, DA MONOTONIA E DA COERÇÃO]

Quanto à acusação de monotonia, de langor, que se dirige à comunidade, ela só pode ser feita por quem não tem nenhuma ideia da organização comunista. Veja, com efeito, como essa organização é monótona! O homem, sob esse regime, fará apenas quatro ou cinco vezes a volta ao mundo. A organização do trabalho, ordenada de acordo com o princípio de comunidade, não é menos acomodatícia; nunca, nessa ordem social, alguém ficará ligado por mais de um dia ao mesmo trabalho. Que langor, portanto, nesse estado de coisas onde o homem viajará continuamente. E isso, com o objetivo de operar a mistura a mais íntima da raça humana; de estimular sem cessar sua atividade ao lhe oferecer sempre fatos novos a estudar; de deixar livre curso ao desenvolvimento da fraternidade ao livrar o homem do contato perpétuo com os mesmos seres, o que engendra o apego individual que é positivamente a negação da lei da atração, una e universal. Ó sim! Em uma organização social combinada assim deve existir uma monotonia e um langor insuportáveis. Leitores, não penseis que tudo isso seja um sonho, nós provaremos que é uma realidade.

Após isso que foi dito, cremos ser inútil responder a essa outra objeção: a comunidade impõe ao homem uma coerção insuportável. Certamente, nenhum daqueles que nos fazem essa objeção leva mais alto do que nós o amor pela liberdade. Todos eles ficariam muito embaraçados se pedíssemos a eles o plano de uma organização social onde toda dominação do homem pelo homem seja inteiramente abolida: nós daremos esse plano neste jornal.


[SOBRE AS DISSIDÊNCIAS]

Enfim, responderemos à terceira e última objeção: “os comunistas são divididos; cada um entende a comunidade à sua maneira”. Respondemos: isso é verdade. Mas qual a causa principal das dissidências? Não é preciso procurar por muito tempo; ela se encontra na ausência de uma obra que formule a doutrina de um modo claro e completo. Todas as que foram publicadas até hoje não atingiram o objetivo que propuseram. As obras antigas, bem como as novas, seja por ignorância de seus autores, ou por medo de ferir alguns preconceitos, estão cheias de ideias falsas, de inconsequências e contradições, que, ao invés de reunir, só fazem dividir. Assim, uma obra, ou uma publicação, que exponha claramente e contundentemente a organização comunista é indispensável para restabelecer a unidade na doutrina, e entre os homens que a professam. Nó viemos para realizar essa tarefa. Que não nos acusem de vir para semear a cizânia, buscar e querer a desunião. Todos os nossos esforços tenderão, ao contrário, à reunir os homens de boa fé sob a bandeira da verdade. Somos profundamente convencidos de que a verdade é o mais poderoso elo para reunir os homens, assim como somos igualmente convencidos de que o erro e a mentira são causas eternas de divisão. Não recuaremos nunca diante da verdade, e nos engalfinharemos com os preconceitos que nos impedem de chegar à ela. Guerra mortal a todos os erros, a todos os preconceitos! A mentira já treme ao aspecto da verdade que avança: viva a verdade!(L'Humanitaire, Nº 1)


[LIBERDADE E TIRANIA]

"Dirão que retirando assim do homem a possibilidade de fazer o mal, nós aniquilamos o eu, assassinamos a liberdade humana, constituindo uma tirania de tipo novo, mas não menos odiosa que a que existia? Já declaramos que ninguém é amigo mais ardente da liberdade do que nós, que ninguém abomina mais todas as tiranias; se a objeção fosse verdadeira, nossa doutrina estaria em contradição com a declaração que fizemos. Examinemo-la. Primeiramente, o que é liberdade? O que é a tirania? A liberdade é uma situação em que o homem não obedece a nenhuma autoridade que não a razão; a tirania é o oposto, ou uma situação em que ele é forçado a cometer atos outros que aquele que sua razão lhe dita. O que é então a razão? É a ciência, ou o conhecimento do que é útil e do que é nocivo. Ora, esse conhecimento é fácil de adquirir. Admitindo que o erro tome o lugar da verdade, ele não poderá durar muito; os fatos virão prontamente para desmascará-lo. Portanto, não há tirania na nossa organização, porque o homem não obedece a qualquer autoridade que não a razão; ela por si só possui todas as condições da verdadeira liberdade." (Sobre a ciência social, L'Humanitaire, Nº 2)


[FAMÍLIA, VENDA E TROCA]

"Perguntais [o jornal L´Atelier] se nós entendemos ´por comunidade, essa vida mais íntima onde, no que respeita ao casamento e à família, alguém se associa voluntariamente tanto por necessidade de economia quanto por sentimento de fraternidade, e onde todos os meios de existência seriam comuns´. Nós respondemos que não é assim que entendemos a comunidade, cuja organização, além do mais, não tem nenhuma relação com a associação que nos apresentais. A julgar por essa associação que vosso jornal apresenta, nós estamos muito distantes de vós. [...] Ora, se entre dois homens se encontra um mais forte que um outro, que produz menos, e que, entretanto, tem tantas necessidades quanto aquele (o que não chega a ser tão incomum), então o menos forte será mais infeliz. Mas esse ainda não é o melhor lado da medalha. Suponhamos (o que não é impossível) que o fraco tenha, diferente do forte, uma família a alimentar com o módico trabalho de seus braços. No que se torna a vossa pretensa comunidade de meios de existência? Não é ela uma piada amarga? Uma piada atroz? E isso não é também exatamente a ordem de coisas atual que mudais apenas o nome? Não faleis então de fraternidade, pois ela não faria nenhum sentido em uma associação semelhante.


Quanto ao sistema de venda, não mais que aquele de troca que quereis substituir e que consideramos como uma engrenagem igualmente inútil, eles não figuram nem um pouco na nossa teoria. Cada comuna será suprida abundantemente, pelas vias de transporte, sem a intervenção de vendedores, nem trocadores, dos objetos necessários a todos os seus membros. Basta que a necessidade seja revelada por cada uma para ser satisfeita instantaneamente e com as mesmas condições.

[AS MÁQUINAS, OS PREGUIÇOSOS E A ATIVIDADE HUMANA]

Até agora, estaríeis [o jornal L´Atelier] de acordo conosco, se nós abundássemos no vosso sentido, mas vós vos apiedais se nossas ideias de comunidade forem mais longe; se nós sonharmos ´com essa era de ouro onde o trabalho não passa de uma agradável distração, onde os frutos da terra são tão numerosos que não se poderá recusar inclusive ao preguiçoso que se sente no banquete´. Então, apiedai-vos à vontade, pois a era de ouro que pintastes como um erro é o objetivo constante a que tendemos. Sim, o trabalho, para o homem, não passará de uma agradável distração. E se não tivesse que ser assim, o que significam então essas máquinas que fazem, sozinhas, o trabalho de uma grande quantidade de braços? Por que se inventaria essa multidão inumerável de mecanismos, uns mais engenhosos do que outros, se não fosse para centuplicar o produto do trabalho, abreviar sua duração, e torná-lo atraente suprimindo o que é penoso? Não perguntaremos se sois contra as mecânicas, isso seria vos fazer injúria, pois sabeis tanto quanto nós que, se elas são hoje um grande mal, elas serão um grande bem quando a sociedade for organizada tal como deve ser, e o homem não precisar mais do que conduzi-las e descobrir novas. Mas então queremos saber por que sois tão excitados em favor da reforma industrial? Seguramente não é para deixar o trabalho tão desagradável quanto já é hoje em dia, nem para torná-lo pior.

A palavra preguiçoso não terá nenhum significado na língua da comunidade, assim como ela já não tem na língua atual. O homem é um ser essencialmente ativo; ele tem uma soma de atividade a exprimir; o objetivo da ciência social é dar a essa atividade uma direção boa e não má; útil e não nociva, nem inútil. Hoje ocorre o contrário. Os indivíduos exercem sua atividade em pura perda, em coisas fúteis, insignificantes, de resultados estéreis. Por quê? Porque foram dados maus exemplos de atividades, porque elas são mal direcionadas, porque, enfim, elas se encontram em um meio social vicioso, ao invés de um meio social bom, um meio em que não se teria que fazer e nem se teria visto fazerem senão coisas úteis, e que nada poderia extraviá-las. Desse modo, as palavras preguiça, vagabundagem e ociosidade são vazias de sentido, a menos que se negue o movimento incessante que se manifesta na natureza e, por consequência, no homem, que não é senão uma maneira de ser dessa natureza. Logo, não existem preguiçosos, vagabundos e nem ociosos, mas seres ativos que os vícios da organização social fazem com que se consumam em atos inúteis, e que uma boa sociedade os deixaria se exprimirem em atos úteis.(Resposta ao jornal L´Atelier, publicado em duas partes, nos números 1 e 2 de L'Humanitaire)

[UMA CRÍTICA DO JORNAL LA FRATERNITÉ AO  L'HUMANITAIRE]

Apesar de suas boas intensões”, diz [o jornal La Fraternité], “os redatores desse jornal [L'Humanitaire] concluem diretamente contra os princípios da igualdade, da liberdade e da fraternidade que eles querem, como nós, propagar.

Se cada homem consiste no organismo material, como pretende o jornal, esse organismo deve ser tomado como medida do homem e marcar seu lugar entre seus semelhantes. Ora, vemos os homens divididos em grandes e pequenos, em fortes e fracos, materialmente falando. E se tomarmos as demonstrações palpáveis e visíveis que L'Humanitaire crê serem as únicas demonstrações rigorosas, então os homens são desiguais entre si.

´Com que direito´, o gigante e o atleta questionarão, ´quereis nos fazer crer que estamos no mesmo nível do anão e do doente, nos rebaixando a sua pequenez e fragilidade, uma vez que a natureza visível fez de nós seres grandes e fortes? Nós fomos criados para ser senhores, e eles, escravos. É a lei de nosso organismo.´

L'Humanitaire não poderá contradizê-los, visto que o organismo é sua regra.

Porém, L'Humanitaire , cheio de boas intenções, provavelmente responderá: ´a fraternidade quer que façais, em favor dos frágeis e pequenos, o sacrifício de vossa grandeza e de vossa força´.

O que dizer? Deixemos o gigante e o atleta responderem: ´não nos ensinais que o único motor das ações humanas é a utilidade? Ora, seria útil para nós nos sacrificar em benefício dos mais fracos do que nós? O que receberíamos em troca disso que daríamos a eles? O que é fraternidade? Os homens não são mais irmãos entre si do que são irmãos das árvores e das pedras. Assim como as árvores e as pedras, o homem é uma agregação de moléculas materiais, e tudo que não é ele, tudo que está fora de seu organismo, separado de seu corpo, é estranho para ele. O homem corta as pedras e come as frutas. Ele pode, do mesmo modo, sem escrúpulos, explorar os seres com rosto humano que estão à sua volta. E não digais que nossas necessidades morais não estariam satisfeitas quando tornarmos infelizes aqueles que vós chamais de semelhantes. Nossa moral é, repetimos convosco, a utilidade, e se nos for útil comer os homens, nós comeremos.´

L'Humanitaire, assustado com essa linguagem, tentará murmurar ainda: ´mas o homem é um ser fatalmente social´. Se vós assumis a fatalidade como princípio, ouçamos novamente esses homens fortes e vigorosos que nós supomos que deixais à vontade: ´a fatalidade quer que dominemos, pilhemos, queimemos, devoremos, e se somos os mais fortes, a nossa própria força é uma prova de nosso direito. Se fazemos, com isso, coisas que vos desagradam, não nos culpais, nós não somos livres, mas instrumentos da fatalidade.´

Essas poucas linhas indicam algumas das tristes consequências do sistema materialista, utilitário e fatal em que L'Humanitaire  se baseia.”

[RESPOSTA DE L'HUMANITAIRE AO JORNAL LA FRATERNITÉ]

“O que significam esse gigante e esse atleta? Os atos que vós os fazeis cometer tem alguma relação com aqueles do homem razoável? De um homem que tem o mínimo de bom senso? Eles têm todas as características do selvagem esfomeado, ou de um louco delirante. Como vós vos deixais acompanhar de seres tão singulares? E aonde pretendeis conduzi-los? Se não para casinhas, é certamente para uma selva. Como não somos nada desejosos de nos acompanhar com gente que entende tão pouco de brincadeiras, e nem de ir a um país que, a julgar por seus habitantes, deve ser mais perigoso do que recreativo, vos deixaremos partirdes sozinhos, e apenas pediremos de vós uma descrição quando retornarem. Quanto a nós, nos transportaremos, por um momento, para a sociedade futura, da qual nós desenvolvemos a teoria, e ali colocaremos o gigante, o atleta, o anão e o doente, aos quais devolvemos a razão que tínheis retirado deles tão impropriamente. Vejamos se nós não seremos mais felizes do que vós na nossa observação, e se nós não obteremos melhores resultados. Primeiramente, devemos notar que os quatro homens, cujas faculdades receberam um desenvolvimento completo, são perfeitamente iguais, não iguais em altura e em força, mas iguais quanto à satisfação de suas necessidades e no exercício de suas faculdades, pois cada um consome segundo os seus apetites, e trabalha segundo as suas forças. Estando igualmente satisfeitos os órgãos tanto dos fortes quanto dos fracos, segue-se a mais perfeita igualdade na satisfação normal dos órgãos de cada um. Logo, nossos quatro personagens são consequentemente iguais sem serem igualmente altos nem igualmente fortes entre si. Portanto, eles são livres sem presumir que a natureza teria criado uns senhores e outros escravos. Eles praticam a fraternidade no sentido mais amplo da palavra. E ainda que eles saibam que “assim como as árvores, o homem é uma agregação de moléculas materiais”, não lhes ocorre a ideia de fratenizar com as árvores e as pedras, e por mais tolos que se suponha que sejam, eles reconhecem as funções, as relações, as propriedades específicas dos diferentes modos de ser da natureza. Eles não confundem o reino mineral ou o reino vegetal com o reino animal. Em cada um desses três reinos, eles descobrem também diferentes maneiras de ser. [...]

[RESPOSTA À CRÍTICA DE LA FRATERNITÉ À IDEIA DE VIAGENS CONTÍNUAS PELO PLANETA]

Ele [o jornal La Fraternité] não quer que desejemos ´uma era em que o homem viajará continuamente para operar a mais íntima mistura da raça humana´. Depois do que, La Fraternité acrescenta: ´O que é essa pretensa mistura senão a promiscuidade mais brutal, a mais luxuriante negação da família! O que é uma viagem perpétua que deve livrar o homem do contato diário com os mesmos seres senão a negação da fraternidade, que L'Humanitaire  invoca, e a realização dessa lamentável balada do judeu errante, que nos representa a apavorante tristeza de um homem condenado a correr eternamente pelo mundo, sem poder pousar sua cabeça sob um teto amigo, apertar a mão de um irmão, nem descansar das fadigas da vida no seio de uma família querida! Quem de nós, ao ouvir em sua infância essa estória lúgubre, não choraria pelo isolamento desse viajante forçado, que atravessa as eras como se atravessasse um vasto deserto?! Quem não se lamentaria de não ter nenhuma companhia nem um amigo?! E é essa balada, a mais desoladora idealização do isolamento no qual os homens tem passado até nossos dias, que L'Humanitaire quer nos fazer considerar como modelo de felicidade e perfeição.´

Há nessa passagem muita poesia, alguns termos cuja aplicação é pouco fraternal e, sobretudo, ignorância completa de nossa doutrina. O que significam essas palavras: a promiscuidade mais brutal, a mais luxuriante negação da família, senão que o jornal La Fraternité inventa ele próprio monstros para se dar o prazer de combater? [...]

O jornal a que estamos respondendo pretende que as viagens contínuas, que tem por objetivo preservar o homem do contato perpétuo dos mesmos seres, são a negação da fraternidade. Se tivesse lido a frase completa de L'Humanitaire, teria visto que, longe de destruir a fraternidade, as viagens a consagram em toda a sua plenitude, tornando impossível o apego individual que é positivamente a negação da lei da atração uma e universal.

[...] Não aceitando as viagens contínuas, vós particionais o princípio [de fraternidade] e, sem se darem conta, vós os dividis em muitas partes: fraternidade doméstica, fraternidade da cidade, fraternidade de todos os homens, o que o reduz a quase nada quando se passa por todas essas etapas. A fraternidade não tem graus, não mais do que a unidade, ela não pode ser separada de si própria. Assim, onde quer que se pratique esse princípio, não percebeis a possibilidade de que o judeu errante repouse sua cabeça sob um teto amigo, aperte a mão de um irmão? Perceba que fazeis o judeu errante não se sair melhor do que o gigante e o atleta. Então, deixai em paz esses seres singulares.(Resposta ao jornal La Fraternité, L'Humanitaire, Nº 2)

Tradução do francês por humanaesfera, a partir da versão disponibilizada pela biblioteca digital Gallica, da Biblioteca Nacional da França.

Estes são apenas trechos seletos, para a tradução mais completa, ver: 
L'Humanitaire (1841), a primeira publicação comunista libertária (tradução ampla).



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